quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Cuidar é também somente observar

Clarice, você me ensinou que há momentos em que não devemos fazer nada. Há momentos em que não devemos falar, pois as palavras são desnecessárias e nunca darão conta de expressar o que se sente, o que se é.
Há momentos em que não devemos cuidar, pois o outro precisa aprender por si mesmo a dor e o prazer implicados no ato de tornar-se humano. Na verdade, neste momentos estamos sendo cuidadores, deixando este outro aprender por si a andar com as suas próprias pernas, ainda que cambaleantes. Ainda que ele caia. Li em algum lugar que o mérito não está em ficar de pé, mas sim em levantar-se após a queda.
Há momentos em que não devemos pensar, pois existir, sentir, viver, não pode ser pensado, mas somente existido, sentido e vivido.
Você consegue me mostrar a beleza triste daquilo que é humano Clarice, demasiado humano.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

"Pão é amar entre estranhos."

Eu fiz amor com um texto teu Clarice Lispector. Sim, é verdade, as tuas palavras me excitam. Quando consigo abrir um vazio dentro de mim, a tua palavra me invade e me causa.
Quando escrevia você era Clarice? Eu tenho a impressão que não. Você se tranfigurava, tornava-se uma semi-deusa. A tua palavra se tornava sangue. Este era o teu dom e a tua sina. Tu eras livre, ainda que dentro de quatro paredes.
Você não era a Clarice quando escrevia. Isso porque a Clarice era humana, demasiadamente humana. A Clarice não conseguiria falar de quão humana ela era. Só a semi-deusa que se expressava por ti conseguiria falar da tua humanidade em demasia.
Vamos Clarice, admita! Você não era você quando escrevia. Você era o seu ser verdadeiro. Então, era com o seu ser verdadeiro que eu fazia amor.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Pre-ocupação

Ao atentar para a realidade e não criar expectativas com relação a coisas que provavelmente não ocorrerão, pode-se viver alegremente e com satisfação da alma a formação e disposição dos pequenos tijolos que formam a mansão dos nossos sonhos.
As palavras não tem peso. São leves ao ponto de serem incômodas.

Im-possível

Impossibilidade é o imposto de uma existência. Há quem sonegue, de toda forma.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

A raridade do bem viver

Hoje pensei que as boas lembranças são como pérolas. Elas aparentam fragilidade, quando na verdade são resistentes. Possuem uma beleza singular. De certa forma elas lembram a Lua. Ambas possuem uma beleza meio melancólica. A Lua me desperta um inexplicável sentimento de saudade (as verdades da vida não podem ser explicadas). Rubem Alves diz que a saudade é um intervalo entre a beleza e a finitude. Somos seres de saudade porque somos belos e finitos.

Pois cada lembrança boa que tenho se transforma em uma pérola. Posso dizer que já possuo um tesouro vasto e precioso, de inestimável valor. E o melhor de tudo; ele não pode ser roubado e não se desvaloriza com o tempo. Eu não preciso comprá-lo ou mesmo procura-lo. As pérolas se mostram pelo caminho, basta estar atento para percebê-las, sabendo olhar nos lugares certos.

O meu tesouro se torna cada vez maior à medida que eu o compartilho com as outras pessoas. A lógica é inversa a do capitalismo, quanto mais se divide, mais se tem.

Sim, as boas lembranças são pérolas! E a nossa existência só se faz autêntica quando conseguimos construir um vasto colar, que nos liga aos lugares por onde passamos, experiências que vivemos e pessoas com as quais dividimos as nossas pérolas.

domingo, 9 de agosto de 2009

Verbo e Vida

Quero escrever sobre algo que eu não sei o que é. A ponta da caneta encosta no papel e infinitas possibilidades se apresentam. Pode-se escrever sobre muitas coisas. Mas eu não quero muitas coisas. Quero exatamente aquilo que eu não sei o que é. Pode ser que seja o meu desejo. Ou mesmo a minha experiência. Simplesmente um reforço?

A chuva me diz que ela é imparcial. Ela chove e nada mais. Aquilo que ela leva pelas suas águas que escoam, sejam lembranças que devem ser esquecidas ou o repouso de uma noite de sono, são conseqüências do chover e não o seu objetivo. Interpretações que se fazem acerca do que ela quer com o ato de chover são reflexos dos desejos daqueles que interpretam.

Acho que tudo tem o seu verbo próprio. Tudo e todos estão em busca do SER. O verbo da chuva é chover. E o do humano? O universo do homem é tão vasto! A chuva só precisa chover para ser o que ela é. O ser humano pode se renovar, perdoar, amar... Imagino que o mistério da existência seja o de achar o nosso verbo próprio.

sábado, 8 de agosto de 2009

“Um recado sem som”

As palavras são incapazes de expressar o que realmente queremos dizer. O silêncio é muito mais completo. Nele está contido o mistério e a paz. Nada precisa ser dito porque tudo está entendido. O silêncio é sagrado.

Mas as palavras são necessárias. Não estamos preparados para o silêncio. São muitas vozes que nos gritam. O olhar é nervoso e a perna balança. Há mal-estar porque tememos o que o outro pensa de nós. São os nossos fantasmas que estamos vendo projetados nele. É preciso falar para “quebrar o gelo”. É isso! O silêncio é tão frágil que se quebra com a mais simples palavras, ou o mais breve ruído.

Algumas palavras se aproximam daquilo que se quer dizer. Isso acontece quando conseguimos ser autênticos. Falamos daquilo que sentimos e ao falar nos transformamos. A palavra penetra, deixa prenhe. Ela imprime um desejo. Aí está o encanto da metáfora, visto que reflete aquilo que habita o nosso interior.

“Só fale se for para melhorar o silêncio.” Difícil... talvez impossível. Necessário.